Fonte: educação.uol.com.br
O estágio é a experiência prática para a formação profissional de um indivíduo e apresenta sua importância com o contato direto do ofício que o mesmo irá futuramente realizar. O seu objetivo é fornecer ao indivíduo as experiências necessárias para que o mesmo adentre-se no mercado de trabalho, mas as fornecendo com uma carga reduzida, seja com trabalhos menos importantes e/ou apresentando uma carga de responsabilidade menor em suas atividades.
Desde o dia em que a professora de Artes disse
a ele que pintasse sua mãe de amarelo, que ficava mais bonito, Eno ficou entristecido. Uma tristeza fininha
que doía e doía, e ele sem saber falar o porquê.
Mão habia entendido direito o porquê de a professora
fazer aquela sugestão, quase exigência, pelo tom e pela dureza de sua fala.
Naquele dia, não quis desenha mas nada, nem colorir. A professora esperou por seu desenho - que não veio. Não veio também aquele sorriso largo de todo dia que ele lançava para dona Lia, que ficava no portão vendo as crianças da escola indo embora.
Chegou em casa mudo. Não correu para os braços
do pai, que sempre o resperava na hora do almoço.
Correu para o seu cantinho lá no terreiro. Cantinho feio
com um monte de caixas de banana que ele pegava no sacolão da sua rua.
Era um esconderijo de menino. Menina não
entrava, adulto também não. Somente os bons amigos e, de vez em quando, seu cachorro vira-lata Simba.
Nem
do Simba ele queria saber naquele dia.
Não comeu o quiabo com angu que seu pai pôs no prato nem aceitou o
bocado de paçoca deixado por tia Nini na última visita.
O pai achou tudo esquisito, ia esperar pela
mulher para ver se descobriam o motivo do banzo de Eno
Os dias foram passando, e cada dia pai e mãe
estranhavam mais a tristeza do menino. Ele nem queria ir à aula. Um dia inventou dor de cabeça. Outro dia
perdeu a hora. No outro apareceu com o uniforme todo molhado de leite.
Amuado pelos cantos, Eno pensava no sentido de tudo. E não encontrava respostas. Ele era negro, seu pai e sua mãe também. Por que não podia pintar sua mãe de negro? Já ficava chateado com os apelidos que alguns meninos lhe davam, tudo coisa ou bicho. Mas a professora dizer a ele que pintasse a mãe de amarelo? Era demais!
Depois de uns dias de silêncio, Eno pediu para
ir à biblioteca do bairro. Seu pai, satisfeito pela pequenina mudança, deixou.
Eno foi direto procurar no
dicionário o significado da palavra "negro". Lá não viu muita coisa boa, achou de novo tudo esquisito.
Voltou para casa triste demais. Queria melhorar, mas não conseguia. Ainda mais na quinta-feira, que era dia de
seu avô fazer a visita de sempre.
Vovô Damião já estava sentado no banquinho, na
frente da casa, com seu chapéu no colo e guarda-chuva do lado. O vô logo viu a tristeza do menino-neto. "Que
banzo é esse, menino?" Eno já sabia que banzo era uma tristeza de negro, vinha do tempo da escravidão, a
saudade da terra, o medo da solidão em outros mares...
Eno não suportava mais tanto silêncio e resolveu
contar ao avô o motivo da agônia.
O avô ouviu tudo, pensou, mastigou vento, coçou a cabeça. E começou. Falava de uma forma que só avô sabe, dando uma aula mansa, contando do tempo antigo, falando das coisas de hoje em dia. Falou de racismo, das dificuldades que as pessoas negras enfrentaram e enfrentam para serem aceitas neste mundo.
Eno ouvia, fazia perguntas. Vô Damião disse do orgulho que tinha de sua família, que lutava para viver com dignidade. E disse uma coisa a Eno, de que ele nunca mais se esqueceu: "A boniteza deste mundo está nas diferenças, diferença de tudo quanto é jeito: de pessoas, de cores de gente e flores, de tamanhos, de línguas e costumes, de sotaques, de jeitos de ficar alegre e triste". Eno era motivo de alegria para sua família, era um presente divino para todos. Não podia ficar triste para sempre.
Naquela sexta-feira, Dia do Pai, dia de força e energia, resolveu voltar para a escola e enfrentar a professora. No dia anterior, ele tinha ficado até tarde caprichando em seu desenho, desenho de mãe negra, como era a sua.
O sorriso voltou ao rosto para presentear Dona
Lia.
A professora, no corredor, recebeu o desenho feito com orgulho e dignidade: "Professora, meu desenho
de mãe, não pintei de amarelo, pintei de negro e negro como é minha mãe, como é a jabuticaba, o ébano, a
beleza da noite escura. Pintei com a cor de mim mesmo".
A professora olhou espantada, mas percebeu a
seriedade da situação. E Eno completou: "Qualquer dia desses meu vô vem aqui dar uma aula, pra todos
aprenderem sobre nossa história"
Na cabeça de Eno tocava uma música que seu avô havia cantado para ele: "Eu sou negro sim, como Deus criou, sei lutar pela vida, cantar liberdade, gostar dessa cor. Eu sou negro sim..."
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